Estudo aponta diversidade como diferencial estratégico da vitivinicultura brasileira
Levantamento nacional mostra que a competitividade da vitivinicultura depende da conexão entre produção, território, mercado e consumo
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Um estudo recém-concluído sobre a vitivinicultura brasileira revela que o setor no país não funciona como uma cadeia linear, mas como um sistema formado por diferentes territórios, modelos produtivos e níveis de organização. O levantamento Brasil Vitivinícola: Panorama Estratégico e Mapeamento da Cadeia de Valor da Vitivinicultura Brasileira aponta que o principal desafio está na dificuldade de articulação entre os elos da cadeia, o que impacta diretamente a geração de valor. Os resultados completos foram apresentados nesta quarta-feira (13), durante a Wine South America, em Bento Gonçalves (RS).
A pesquisa foi desenvolvida ao longo de aproximadamente 15 meses, entre 2024 e 2026, reunindo mais de 40 fontes institucionais e setoriais, 14 relatórios regionais e temáticos, mais de 150 horas de campo, escuta técnica e validação, além de entrevistas, visitas técnicas e análise territorial em mais de 10 territórios vitivinícolas brasileiros. O levantamento utilizou bases de dados de órgãos como IBGE, MAPA, Embrapa, SIPEAGRO, SIVIBE, INPI e Comex Stat para construir uma leitura integrada da vitivinicultura no país.
O estudo foi desenvolvido pela Planorural, em parceria com o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) e o Sebrae Nacional, sob coordenação do professor e consultor em marketing estratégico Paulo Henrique Leme, doutor em Administração pela Universidade Federal de Lavras (UFLA).
De acordo com Leme, a principal mudança está na forma de interpretar o setor. “A vitivinicultura brasileira entrou em uma nova fase. O país já não pode ser entendido
apenas a partir de uma cadeia única ou de uma região produtora dominante. O estudo mostra um setor diverso, com territórios, produtos e modelos de negócio muito distintos. Essa diversidade é uma vantagem competitiva, mas precisa ser organizada. O desafio agora é coordenar melhor produção, indústria, mercado e território para transformar essa riqueza em valor, renda e desenvolvimento regional.”, afirma.
A pesquisa mostra que a produção de uvas, vinhos e derivados está distribuída em diversas regiões do Brasil, que operam com diferentes escalas, estruturas e estratégias de mercado. Essa diversidade amplia o potencial do setor, mas também exige maior coordenação entre produtores, indústria, distribuição e comercialização. A distribuição de valor ao longo da cadeia depende de coordenação, e os novos modelos de negócio vitivinícola encontrados no estudo demonstram essa necessidade.
Entre os principais gargalos identificados estão os desafios de integração entre os diferentes elos da cadeia, a assimetria de informações e as diferenças de maturidade institucional entre os territórios.
O desafio de transformar produção em valor
Outro ponto central é a concentração de valor nos elos mais próximos da transformação, da marca e do relacionamento com o consumidor. Produtores que atuam apenas na etapa agrícola tendem a capturar menor valor, enquanto regiões e empresas que avançam em transformação local, marca própria, indicação geografiaca, enoturismo e venda direta ampliam significa cativamente sua capacidade de geração de receita.
Os números consolidados no estudo ajudam a dimensionar a escala e as diferenças estruturais da cadeia vitivinícola brasileira. Segundo o levantamento, com base em dados da PAM/IBGE e da Embrapa, a produção brasileira de uvas destinadas ao consumo in natura e à industrialização ocupa cerca de 84,4 mil hectares, alcança aproximadamente 1,82 milhão de toneladas por ano e movimenta cerca de R$ 8,3 bilhões em valor da produção agrícola, distribuídos em 1.215 municípios.
O estudo também revela uma assimetria importante entre volume agrícola e estruturação da cadeia. O Nordeste responde por 47,73% da produção nacional de uvas, com predominância da produção voltada ao consumo in natura (95%), mas concentra apenas 8,66% dos registros formais de estabelecimentos no SIPEAGRO – Vinhos e Bebidas. Já o Sul reúne 42,05% da produção nacional, com predominância da uva destinada ao processamento (97,5%) de vinhos, sucos e derivados, e concentra 47,56% desses registros, indicando maior densidade institucional, industrial e organizacional da cadeia.
Para o estudo, esse contraste mostra que produzir mais não significa, necessariamente, estruturar a cadeia da mesma forma ou capturar valor nos mesmos elos.
O levantamento também identificaca a coexistência de diferentes modelos produtivos no país, incluindo o modelo tradicional do Sul, o modelo tropical irrigado do Nordeste e o modelo de inverno em expansão no Sudeste e Centro-Oeste.
No recorte regional, o Rio Grande do Sul se destaca como o território com maior nível de maturidade da cadeia vitivinícola no Brasil, reunindo base histórica consolidada, forte articulação institucional e presença de indicações geográficas reconhecidas.
Para o presidente do Consevitis-RS, Luciano Rebellatto, o estudo contribui para qualificar a compreensão do setor e orientar decisões estratégicas. “O estudo ajuda o setor a entender onde estão seus principais desafios e também onde estão suas maiores oportunidades de geração de valor. Para o Consevitis-RS, esse tipo de inteligência é essencial para apoiar o desenvolvimento sustentável e competitivo da vitivinicultura brasileira. ”, destaca Rebellatto.
Já para o diretor técnico do Sebrae Nacional, Bruno Quick, o estudo possui caráter estratégico ao transformar informações em inteligência aplicada à ação. Segundo ele, ao mapear os diferentes territórios, modelos produtivos, gargalos e oportunidades da
vitivinicultura brasileira, a iniciativa estabelece uma base técnica consistente para orientar ações mais direcionadas de apoio aos pequenos negócios, promovendo a qualificação da gestão, o acesso a mercados, a inovação, o enoturismo e o desenvolvimento territorial. “Mais do que um diagnóstico, o estudo inaugura uma agenda estruturada de atuação para ampliar a competitividade do setor”, afirma Quick.
O estudo mostra que o futuro da vitivinicultura brasileira não será definido apenas por quem produz mais uva ou mais vinho, mas por quem conseguir transformar território, identidade, qualidade, experiência e mercado em valor. Em um setor tão diverso, a competitividade dependerá da capacidade de coordenar os elos da cadeia e fazer essa diversidade chegar ao consumidor como marca, reputação e desenvolvimento regional. “O futuro do setor dependerá menos de escala isolada e mais da capacidade de integrar território, mercado e diferenciação”, resume Leme.
Sobre o Consevitis-RS
O Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS) atua no apoio, difusão e financiamento de demandas relacionadas à produção de uvas, vinhos, sucos de uva e demais produtos derivados no âmbito agrícola, produtivo, técnico, promocional, cultural, ambiental, jurídico e institucional. O instituto também está envolvido em programas de ensino, pesquisa, extensão e inovação, visando ao constante desenvolvimento e aprimoramento do setor vitivinícola. Sobre o Sebrae O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) visa promover a competitividade e o desenvolvimento sustentável dos pequenos negócios e fomentar o empreendedorismo, para fortalecer a economia nacional. Na cadeia da vitivinicultura, possui o objetivo de desenvolver pequenos negócios, contribuindo para o fortalecimento territorial por meio da integração com o enoturismo e a gastronomia.
Sobre o Sebrae
O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) visa promover a competitividade e o desenvolvimento sustentável dos pequenos negócios e fomentar o empreendedorismo, para fortalecer a economia nacional. Na cadeia da vitivinicultura, possui o objetivo de desenvolver pequenos negócios, contribuindo para o fortalecimento territorial por meio da integração com o enoturismo e a gastronomia.
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